Drácula de Bram Stoker

 DRÁCULA

Minha edição do livro é essa. 



                 Essa ideia surgiu durante a quarentena e, gostaria de frisar que a mesma foi totalmente apoiada pela mente travessa de um amigo, decidi começar com o que eu mais gosto de ler, principalmente se for livros velhos. 
    As pessoas mais próximas do meu círculo social sabem que tenho uma obsessão nada saudável por seres mitológicos e sobrenaturais, digo sem aquela coisa do vampiro que brilha ou dos lobisomens de ensino médio que parecem ter o triplo da idade de um adolescente. 
    Sempre gostei da coisa que fosse visceral mesmo, com sangue, morte, um pouco de romance (afinal de contas, é preciso ter um charme) e questões filosóficas que me fizessem questionar alguma coisa. Pra me ajudar a me afundar nesses universos, a incrível editora L&PM lançou essas edições de bolso de alguns clássicos e, como eu não sou patrocinada, né, me rendi a alguns deles que já estão na minha listinha de: "gastar o dinheiro suado no final do mês". 
    Para começar, tenho que explicar que o livro todo se trata de uma coletânea de cartas enviadas entre os personagens, ou seja, pertence ao gênero epistolar. Especificamente irei falar dos diários do Jonathan Harker (o protagonista) e Mina Harker (respectivamente, sua esposa).
    À partir daqui o texto será recheado de spoilers, então fique por conta e risco!

OS DIÁRIOS DE JONATHAN HARKER

Keanu Reeves belíssimo como nosso prota.

    Jonathan Harker é um advogado inglês que está viajando em um país estrangeiro afim de estreitar relações com um certo Conde. 
    Conforme convive com esse homem misterioso, Jonathan vai se colocando em situações perigosíssimas sem ter qualquer senso de urgência e isso faz com que ele acabe sendo cativo do Conde.
 
    Na minha opinião, ele é um personagem bem irritante ( já vejo as pedras). Em minha defesa, creio que um ceticismo exagerado é tão irritante quanto a superstição extrema. E, infelizmente, Jonathan faz este papel, ele é o moço pertencente à uma classe social elevada e que é cético quanto as crendices dos povos locais, pois estes seriam "leigos demais" ou que não teriam contato suficiente com a academia. 
    O fato é que, para ele, é díficil acreditar em algo que não tenha saído de uma sala de experimentação e é nesse preceito que o personagem acaba sendo seduzido e mantido em cativeiro pelo vampiro.
    E falando sobre a percepção (que diga-se de passagem, semelhante a de uma batata) dele sobre o Conde, constrói-se dentro dessa narrativa questionamentos que nunca são capazes de nomear o que, de fato, o Conde é.
    O desenrolar da trama, sob a perspectiva do protagonista, se constrói nessa percepção lenta e duvidosa causando uma ansiedade palpável. Afinal de contas, temos um homem inglês do século XIX, reconhecidamente cético e que aos poucos vai admitindo estar errado abrindo um espaço para que o sobrenatural se construa mediante a um surto de loucura. 
    Não que eu esteja querendo que todo cético fique louco, mas a metáfora empregada no caso do Jonathan é muito interessante. Afinal, ceticismo demais é o bloqueio da imaginação e, consequentemente, do medo e, a maioria dos ditos céticos, se faz valer de uma coragem que não se satisfaz, visto que quando confrontados com suas convicções, faz-se uma espiral infinito em loucuras e duvidas.
    Durante o caminho que percorre até o castelo, Jonathan se depara com algumas situações que por si só gritam que algo está errado, mas atendendo a todas essa características aliadas à teimosia, soberba e ganância, ele resolve que: "essas questões supersticiosas não passam de resultado de um povo que sofreu com guerras, fomes e destruição e que precisa que esses bichos papões existam pra justificar o justificável".  
    Vejam bem, não estou dizendo que se deve acreditar que porcos voam ou coisa parecida. Mas entendam que, Bram Stoker constrói neste personagem essa reflexão, de que ceticismo demais faz tão mal quanto a extrema crença em algo.
    Retomando o contexto original, temos a fuga de Jonathan e sua árdua volta à Inglaterra tentando impedir os planos malignos de Vlad. E muito visível perceber que ele se mostra mais aberto ao palpite de que talvez há algo que fuja da compreensão humana.  


O DIÁRIO DE MINA HARKER

Winona Ryder arrasando nos looks.

    Dando prosseguimento ao enredo, temos o desenvolvimento da personagem Mina. Ela é uma jovem apaixonada que está noiva do protagonista que se mostra aflita quando as cartas dele param de chegar (a única com senso de urgência e de perigo nessa história toda).
    Gosto muito dessa personagem, pois mesmo que ela tenha a essência de uma mulher do século XIX, ou seja, que siga os preceitos religiosos, se guarde para o casamento, seja casta, dócil, habilidosa nos trabalhos domésticos e afins, existem algumas características que a fazem destoar das suas semelhantes.
    Na minha opinião, é uma das personagens femininas mais bem construídas na literatura. Há uma delicadeza na maneira como o consciente dela é produzido, Mina é afiada, esperta, desperta e extremamente leal à sua intuição. Creio que essa construção tão bem feita deve-se ao fato de que a mãe do autor, pode, ter sido feminista nos tempos do sufrágio (lembro de ter lido algo sobre). 
    Veja bem, Mina não hesita em acreditar nas palavras de Van Hellsing ou de Jonathan. Ela não se traí, creio que seja essa a força motivadora do Conde para seu interesse, nada consensual devo frisar, com a jovem. Acredito que se há profundidade no protagonista, ela que o faz construir.
    O diário anterior é escrito totalmente para ela e eu creio na crença de Jonathan que apenas ela poderia derrotar o Conde. Ao mesmo tempo que se forçado esse discurso de que ela teria "qualidades masculinas" creio que em todos as suas ações decorrem de uma sensibilidade tão profunda.
    Mina transfigura o desespero de salvar alguém que amamos no maior sacrifício possível e acho que a beleza dessa personagem se faz dentro do seu poder de abdicação e lealdade. Não há questionamentos que consigam atravessar o que ela sente por Jonathan. 
 

 O DRÁCULA

 
    Depois que terminei de ler o livro, tive a impressão de que Bram Stoker quis desenvolver seu vilão, talvez em uma outra obra, mas creio que isso nunca chegou a acontecer.
    Esse ser, quase místico, não passa de uma grande alegoria. Seu desejo incessante por sangue, rejuvenescer e estar na companhia de seus pares são características que, talvez, todos temos e, por isso, o considero extremamente humano.
    Vlad (para os mais íntimos) é o profundo desespero. Um parasita que não pode viver sem sugar dos outros, quando percebe que a fonte da virtude de seu prisioneiro é a amada, não tarda esforços para persegui-la. 
    Argumento que talvez seja a necessidade crua e animalesca de sentir. Gosto de pensar nessa perspectiva, de que esse monstro sedento vive nas amarras da própria ambição, que viver séculos em um castelo talvez tenha tirado a essencialidade humana de sentir.
    Seu fim é de dar pena, assassinado por seus próprios desejos e anseios. Suas esposas são objetos de puro prazer, mas o prazer é vazio, não é genuíno e nem se configura em algo material. E por isso, ele luta até o fim, talvez por achar que o viver de Jonathan e Mina poderia se configurar nesse algo material e os grilhões de séculos de uma vivência vazia pudessem ser apaziguados, mesmo que por segundos.  
 

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